Na varanda com... Silvio Ferreira Leite, o mago do tempo!

Silvio, que bom recebê-lo aqui, em minha casa na floresta. Sei que você curte essa paisagem e agora mesmo deve estar em lugar parecido... e bem real! Vamos conversar, que é o que gostamos de fazer, além de trabalhar...
 
1- Do que você precisa para viver bem?
 
Ah, minha querida amiga, eu preciso de harmonia. Harmonia externa e interna. Gosto da combinação das cores, das formas, dos aromas, e esse conforto me traz o aconchego necessário para  relaxar completamente. Gosto de bem-querer, de olhos calmos e sinceros, de compreensão, de carinho. Pode parecer piegas, mas preciso também de amor, de bastante amor, para me sentir integrado à vida e poder criar.
 
2- Você é muito ativo e criativo. Acredita que a meditação pode melhorar a criatividade?
 
Para mim, a meditação é a fonte da criatividade. Todas as minhas melhores ideias chegaram em momentos meditativos, quando eu não estava fazendo nada, ou quando fazia algo sem mirar um objetivo específico. Se você diminui o fluxo de pensamentos, que normalmente congestionam as vias mentais, abre-se um espaço interno, onde a criatividade se manifesta. Se a pessoa está com a cabeça cheia de problemas, de preocupações, de pensamentos, não há espaço para mais nada, nem para o conteúdo de um bom livro.
 
3- Cite três coisas essenciais num bom livro.
 
Um bom livro é aquele que agarra você nos primeiros parágrafos. Quase instantaneamente, ele provoca alguma reação dentro de você e cria uma expectativa, ou várias, e promete revelações. Um bom livro é fluente e conduz a sua imaginação como se você estivesse navegando em um rio às vezes calmo, às vezes agitado, que ninguém sabe para onde vai. Um bom livro é aquele que enriquece o seu mundo interior, seja com proposições, seja com questionamentos, que são duas formas de contribuir para o crescimento humano.
 
4- O que você está lendo no momento?
 
Para um leitor quase compulsivo, pode parecer estranho dizer que não estou lendo nada no momento. Como todo escritor, também tenho certas manias. Uma delas é não ler durante a realização de algum trabalho autoral, para não sofrer influência direta. Hoje, estou escrevendo um novo romance, e meus olhos são apenas para ele. Como o assunto tem a ver com o mundo natural, e porque moro atualmente num sítio, no alto da serra da Mantiqueira, tenho lido apenas o livro da natureza, que me conta histórias verdes e silenciosas de um tempo que passa mais lentamente do que na cidade.
 
5- Por falar em tempo, se você pudesse viajar para o passado ou o para o futuro, qual época escolheria?
 
Ah, Flávia, o que mais faço é viajar no tempo. Já fui para um local onde existe o eterno agora. Visitei outro onde o tempo passa muito, mas muito rápido. Já percorri todo o passado da humanidade e também já me assustei com seu futuro. Contraditoriamente, vivo sempre no meu momento presente e o levo comigo para todos os tempos e lugares. Na verdade, não sei permanecer no mundo objetivo. Por isso, olho para ele, interajo com ele, faço o que é preciso, mas prefiro pertencer à realidade mágica.
 
6- Esse é o segredo para permanecer sereno no caos do mundo?
 
Era o segredo. Agora, que contei a você, não é mais. Essa minha tendência de buscar a realidade mágica faz com que eu veja o mundo objetivo como algo absolutamente ilusório, da mesma forma como as pessoas identificadas com o mundo objetivo acham a realidade mágica ilusória. Mas há uma diferença. A realidade mágica não estressa, não deprime, não sufoca, é plena e relaxante. O cotidiano, por sua vez, além de ser competitivo e cruel, leva as pessoas em busca de valores inconsistentes, mas que elas julgam verdadeiros e essenciais.
 
7- Voltando para o mundo objetivo, mas nem tanto, você está trabalhando em algum projeto novo? Ouvi dizer que está ligado à música...
 
Acertou. Estou compondo com Marcos Bohrer, da banda Sexto Grau (www.myspace.com.br/sextograu), que faz um rock autêntico, vigoroso, diferente de tudo que acontece no panorama da música atual. Sou o letrista, e por isso tenho a responsabilidade de buscar temas novos, necessários, que transmitam o espírito de rebeldia, que é a essência do rock, e alguns aspectos da inquietação que felizmente caracteriza o mundo jovem.
 
8- E como o jovem gosta de comer, é hora do lanche. Oba! O que vamos preparar nesta linda tarde de outono?
 
Se você me permite valorizar o lado da roça, podemos fazer um delicioso manjar de coco, herança de minha mãe. Em casa, eu mesmo preparo e sirvo para as visitas, que sempre querem saber a receita. É claro que eu ensino. E até já fui homenageado. Minha amiga Cristiane escreveu no seu livro de receitas: Manjar do Sílvio.
 
Obrigada pelo presente. Você me deu um lindo arco-íris, que um dia visitou você aí no sitio Santa Roça, em São Francisco Xavier. Um beijo grande e muito carinhoso procê! Volte sempre à casa na floresta.
 
Silvio Ferreira Leite é jornalista, escritor, compositor e poeta, além de amigo de outras vidas. Fala manso, mas diz somente a verdade.


Na varanda  com...  Silvio  Ferreira Leite, o mago do tempo!


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